Há
4 anos, a cabeleireira Susana, de 50 anos, viveu um drama capaz de
comover os corações mais insensíveis. Ela foi vítima do seu
próprio companheiro, o mesmo a quem, durante dois anos, havia se
dedicado totalmente e entregue sua confiança de esposa, de mãe e de
amiga. O relacionamento dela com seu companheiro era comum, não
tinha muita discussão, apenas coisas simples como em toda vida a
dois. Com o passar do tempo, ela descobriu que ele era usuário de
drogas, o que a fez perder a admiração pelo marido.
Quando
ele percebeu que ela não mais queria estar ao seu lado, apresentou
um comportamento diferente e passou a ser agressivo. Porém, ela não
acreditava que um dia pudesse chegar ao ponto de agredi-la.
Num
fim de tarde de sábado, em janeiro de 2010, ele a convidou para
fazer um passeio. Depois de ter entrado no carro, ela não se lembra
de mais nada, apenas do momento quando acordou numa mata em Barra do
Riacho, Aracruz. Ao acordar, ainda era madrugada e não conseguia
enxergar muito o que estava à sua frente. Foi quando ela se deu
conta que havia sido espancada.
Susana
teve que passar por cirurgia, pois havia quebrado o maxilar e sofrido
um traumatismo craniano. Depois de alguns dias de internação, ela
foi se lembrando do que havia acontecido e procurou ajuda da polícia.
Ficou amparada por medida protetiva durante seis meses.
Hoje,
Susana pede que todas as mulheres, ao serem ameaçadas, que
denunciem, e que não se calem. E espera que a sua história sirva de
exemplo.
“O
que eu peço às mulheres hoje em dia, que elas possam ser não a
primeira Susana, mas essa segunda Susana, essa de agora, essa que
quase morreu, essa que passou por uma casa abrigo, essa que sofreu.
Que elas não se esqueçam e não passem o que Susana passou. E que
elas tomem coragem de se reunir, de buscar alguém da Justiça, e
nunca contar para qualquer pessoa”.
Números
Diferente
da história de Susana, que conseguiu sobreviver às agressões,
outras tantas não conseguiram o mesmo. Elas acabaram virando
índices, e entraram na estatística, aumentando o número de
mulheres mortas no Estado.
O
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que, entre
2009 e 2011, o Brasil registrou 16,9 mil mortes de mulheres por
conflito de gênero, especialmente em casos praticados por parceiros
íntimos. A pesquisa mostra que o Espirito Santo é o estado
brasileiro com a maior taxa de feminicídios.
Dados
da Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Espírito Santo
também indicam que 10% dos assassinatos de 2013 foram de mulheres.
De janeiro até 23 de fevereiro deste ano, do total de homicídios
registrados, 8% tinham mulheres como vítimas. Das mulheres
assassinadas, 77% estão na faixa etária entre 13 e 34 anos.
Dificuldades
no atendimento
As
mulheres vítimas de violência passam por diversas dificuldades.
Membro do Fórum Estadual de Mulheres, Eusabeth Vasconcelos, aponta
que um dos problemas que as mulheres encontram é logo quando entram
nas delegacias.
“Um
dos entraves é o acolhimento. Elas chegam na delegacia e os
policiais perguntam se ela vai representar ou não vai representar?
Ela não sabe o que é isso”.
Rede
em Defesa da Mulher
Diante
dessa realidade de violência contra a mulher capixaba, desde o
último ano a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de
Vitória passou a funcionar 24 horas, inclusive aos sábados e
domingos, período em que a violência doméstica mais acontece.
Ainda na Grande Vitória existem delegacias especializadas na Serra,
Cariacica, Vila Velha e Guarapari, mas não funcionam 24 horas.
No
interior do Estado o problema é ainda mais grave, pois apenas nos
municípios de Colatina, Cachoeiro de Itapemirim e São Mateus há
delegacias especializadas, mas que também não funcionam 24 horas.
Em Linhares, o espaço onde funcionará uma delegacia ainda está em
reforma.
Para
a subsecretária de Movimentos Sociais da Casa Civil do Estado,
Leonor Araújo, há necessidade de ampliação do atendimento social
à mulher.
“O
nosso maior problema hoje em relação à políticas para as mulheres
é o fortalecimento da rede que dá o subsídio para essa mulher que
sofreu a violência. A gente tem que fortalecer todos os centros,
criar mais centros especializados de atendimento à mulher. Nós
temos que criar mais delegacias especializadas de atendimento à
mulher. Nós precisamos ampliar essa rede”.
Em
Vitória, além do atendimento policial especializado funcionando 24
horas, 200 mulheres também fazem uso do Botão do Pânico. O
objetivo é fazer com que elas acionem o botão quando se sentirem
ameaçadas. O aparelho permite a localização da vítima e o envio
imediato de uma viatura policial para o socorro da ameaçada.
Segundo
a juíza Hermínia Azoury, Coordenadora Estadual da Mulher em
situação de Violência Doméstica e Familiar do Poder Judiciário,
o mais interessante é que não está ocorrendo reincidência de
homens agressores.
“Nenhum
agressor que foi processado ou que estava sob medida protetiva, cujas
vítimas tinham em posse o botão do pânico, reincidiu porque eles
sabiam que seriam presos. Esse aspecto inibidor foi extremamente
relevante”.
Todos
os dias uma nova mulher recebe o equipamento, transferido de outra em
situação de menos risco. Há quase um ano do seu lançamento, o
botão precisou ser acionado sete vezes, segundo o próprio Tribunal
de Justiça, resultando em três prisões e em quatro mandados de
prisão.
As
histórias de Marias, Fátimas, Penhas, Adrianas e tantas outras que
perderam suas vidas de forma prematura contribuíram para escrever
essa triste página da história do Espírito Santo. Personagens da
vida real que poderiam ter tido um final diferente.
Fontes:
Rádio
CBN Vitória
DEAM
- ES
Policia
Civil - ES
Tribunal
de Justiça - ES
Editado
por:
Thiago
Madeira
Sociólogo
/ Professor
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