quarta-feira, 16 de julho de 2014

A investigação do quesito cor/raça nas pesquisas sobre violência contra a mulher ainda é pouco explorada

A violência contra a mulher é um fenômeno presente nas diferentes classes sociais e atinge mulheres de todas as cores/raças e etnia. No entanto, pode-se dizer que grande parte das mulheres que recorrem aos serviços públicos de segurança e justiça, lançando a questão na cena pública, são classificadas ou se autodeclaram como pardas, pretas e/ou negras.
 
Em Vitória/ES, estudos realizados por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (NADER,2013; CORTEZ, 2012) apontam para essa realidade.  
 
Cortez (2012), em sua tese de doutorado onde foram analisados 613 Boletins de Ocorrência registrados na Delegacia de Atendimento à Mulher de Vitória, durante seis meses do ano de 2010, relacionados à violência doméstica e familiar contra mulheres praticadas por parceiros e ex-parceiros apontou que "A maioria das denunciantes declarou-se parda (361; 58,8%), 201 (32,9%) declararam-se brancas e 48 (7,8%) disseram ser negras"(CORTEZ, p. 83, 2012).
 
No entanto, o quesito cor/raça ainda tem sido negligenciado em levantamentos e pesquisas mais abrangentes sobre a violência contra a mulher. Em Vitória/ES, pesquisa publicada pelo Instituto Jones Santos Neves em 2008 que utilizou como fonte de dados os boletins de ocorrência registrados na DEAM de Vitória nos anos de 2004 a 2006 não levantou o quesito cor/raça das denunciantes (IJSN, 2008). O documento Mapa da Violência 2012: Homicídio de Mulheres no Brasil apontou que a  cidade de Vitória/ES ocupa o primeiro lugar no ranking de homicídios de mulheres dentre as capitais com uma taxa de 13,2 (em 100 mil mulheres, ocupando a 25ª posição entre 577 municípios pesquisados) no entanto, não apresentou informações sobre o quesito raça/cor.
 
Incluir a investigação deste quesito nas pesquisas e levantamentos sobre a temática da violência doméstica ajuda a desmistificar a ideia de que a violência é democrática e atinge a todos igualmente e nos possibilita pensar em políticas públicas de prevenção e atendimento que possam atingir os diferentes grupos envolvidos.  
 
Como aponta Cardoso (200?) "a ausência da cor nas pesquisas parece desses silêncios carregados de significação. Devemos nos deter com mais atenção sobre o processo pelo qual a cor acaba por desaparecer das pesquisas, que desse modo enfatizam, digamos, a irrelevância sociológica das distinções raciais" mas na verdade, a inclusão do quesito raça/cor pode relevar importantes e necessários  aprendizados.
Bibliografia

INSTITUTO JONES DOS SANTOS NEVES. Violência contra a mulher 2008: ocorrências registradas na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), Vitória – ES 2004 a 2006.Vitória, 2008.
WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2012. Atualização: Homicídio de Mulheres no Brasil. 2012. Disponível em: <http://www.compromissoeatitude.org.br/wp-content/uploads/2012/08/MapaViolencia2012atualizacaoagosto_HomicidiosMulheres.pdf. Acesso em 10 jul. 2014.
CARDOSO, Edson Lopes. A indesejável das pesquisas. 200?. Disponível em: <http://arquivo.geledes.org.br/em-debate/edson-cardoso/6073-a-indesejavel-das-pesquisas>. Acesso em: 10 jul. 2014.
CORTEZ, Mirian Béccheri. “Sem açúcar, com afeto”: estudo crítico de denúncias de violência contra as mulheres e dos paradoxos da judicialização (Tese Doutorado). Universidade Federal do Espírito Santo. Programa de Béccheri Cortez. – 2012. Disponível em: http://portais4.ufes.br/posgrad/teses/tese_3608_.pdf. Acesso em: 10 jul. 2014.
NADER, Maria Beatriz. A vida em desunião: violência, gênero e denúncia. In: ANAIS. XXVII Simpósio Nacional de História. Conhecimento histórico e diálogo social. Natal - RN. 22 a 26 de julho de 2013.

Por:  Ingrid M. Taufner
A letra dessa música pra mim é um poema de resistência e afirmação da identidade da mulher negra. Um manifesto contra o racismo e  de legitimação de nossa negritude.

Muito do que já estudamos nos módulos até aqui, está contemplado nessa letra de forma muito bem fundamentada e, me lembrou da Unidade 4 quando discutimos os movimentos negros; neste caso, usar de manifestação artística para (re) afirmar a identidade da população feminina negra, falar dos preconceitos, reivindicar direitos, é uma estratégia bem inteligente e lúdica de se fazer militância.

Wilka França






Mulheres Negras
Composição: Facção Central
Intérprete: Y'zalú

Enquanto o couro do chicote cortava a carne,
A dor metabolizada fortificava o caráter;
A colônia produziu muito mais que cativos,
Fez heroínas que pra não gerar escravos matavam os filhos;
Não fomos vencidas pela anulação social,
Sobrevivemos à ausência na novela, no comercial;
O sistema pode até me transformar em empregada,
Mas não pode me fazer raciocinar como criada;
Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo,
As negras duelam pra vencer o machismo,
O preconceito, o racismo;
Lutam pra reverter o processo de aniquilação
Que encarcera afros descendentes em cubículos na prisão;
Não existe lei maria da penha que nos proteja,
Da violência de nos submeter aos cargos de limpeza;
De ler nos banheiros das faculdades hitleristas,
Fora macacos cotistas;
Pelo processo branqueador não sou a beleza padrão,
Mas na lei dos justos sou a personificação da determinação;
Navios negreiros e apelidos dados pelo escravizador
Falharam na missão de me dar complexo de inferior;
Não sou a subalterna que o senhorio crê que construiu,
Meu lugar não é nos calvários do brasil;
Se um dia eu tiver que me alistar no tráfico do morro,
É porque a lei áurea não passa de um texto morto;

Não precisa se esconder segurança,
Sei que cê tá me seguindo, pela minha feição, minha trança;
Sei que no seu curso de protetor de dono praia,
Ensinaram que as negras saem do mercado
Com produtos em baixo da saia;
Não quero um pote de manteiga ou um xampu,
Quero frear o maquinário que me dá rodo e uru;
Fazer o meu povo entender que é inadmissível,
Se contentar com as bolsas estudantis do péssimo ensino;
Cansei de ver a minha gente nas estatísticas,
Das mães solteiras, detentas, diaristas.
O aço das novas correntes não aprisiona minha mente,
Não me compra e não me faz mostrar os dentes;
Mulher negra não se acostume com termo depreciativo,
Não é melhor ter cabelo liso, nariz fino;
Nossos traços faciais são como letras de um documento,
Que mantém vivo o maior crime de todos os tempos;
Fique de pé pelos que no mar foram jogados,
Pelos corpos que nos pelourinhos foram descarnados.
Não deixe que te façam pensar que o nosso papel na pátria
É atrair gringo turista interpretando mulata;
Podem pagar menos pelos os mesmos serviços,
Atacar nossas religiões, acusar de feitiços;
Menosprezar a nossa contribuição na cultura brasileira,
Mas não podem arrancar o orgulho de nossa pele negra;

Refrão:
Mulheres negras são como mantas kevlar,
Preparadas pela vida para suportar;
O racismo, os tiros, o eurocentrismo,
Abalam mais não deixam nossos neurônios cativos.



Os números dos homicídos contra a mulher no Brasil


Em tempos de violência naturalizada às vezes nem nos damos conta de que em determinados momentos estamos sendo vítimas de violência sexista. Por isso, é importante nos atentarmos para os detalhes, pois a violência está aí, no cotidiano, no trivial, disfarçada de elogios, piadas, gentilezas e em ações ditas comuns, estabelecidas nas relações sociais. 
 
Os discursos promovidos por meio da mídia e de empresas do entretenimento e bebidas, por exemplo, passam a imagem da mulher como coisa, objeto de posse, status e troféus dos homens. Nesse sentido, quando na rua, um homem, um desconhecido qualquer, que nos dirige “cantadas” - que pra muitos podem ser consideradas elogios - de forma desrespeitosa seja grosseiramente, seja simbolicamente, e assim o faz apenas pelo fato de sermos mulheres, muitas vezes também é o mesmo pretexto que o leva a cometer estupros. 
 
Além dessa violência simbólica que permeia as relações sociais e afetivas também há a expressão máxima de toda essa violência que é o assassinato de mulheres.
Segundo o mapa da violência de 2012, em relação aos homicídios, as armas de fogo causaram 49,2% dos homicídios que vitimizaram mulheres, seguido de objetos cortantes, penetrantes, contundentes, além de sufocamento, juntos totalizam 39,7%; Em relação ao local 41%, ocorreram em sua residência/habitação.

Isto posto, dá para inferir que a maior parte dos homicídios cometido contra mulheres, são oriundos de violência doméstica.

Nesse contexto de violência contra as mulheres, especificamente, nos óbitos por homicídios, o estado do Espírito Santo, assume um vergonhoso primeiro lugar na média nacional dos estados brasileiros, onde mais se mata mulheres. Nos dados atualizados do mapa da Violência de 2012 (homicídios de mulheres no Brasil) o estado apresenta uma taxa de 9,8 homicídios em cada 100 mil mulheres, o que dá mais que o dobro da média nacional. Na capital Vitória essa taxa é ainda mais alarmante e chega a 13,2 homicídios em cada 100 mil mulheres. 
 
Na lista dos 100 municípios onde mais se comete homicídios contra mulheres, o Espirito Santo, aparece com cinco entre os trinta primeiros: Serra no 7º, Aracruz 14º, Cariacica 19º, Vitória 25º e Vila Velha 29º.
No tocante a caracterização da violência contra a mulher, foi identificado a partir dos 107.572 atendimentos registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) do Ministério da Saúde os seguintes dados:
  • Atendimentos registrado relativos a Violência Doméstica, Sexual e/ou outras Violências: 70.285 (65,4%) eram mulheres e 37.213 (34,6%) eram homens;

  • Local de ocorrência: 71,8% dos casos ocorreram na própria residência da vítima e 15,6% dos casos em vias públicas. Dessa forma podemos fazer uma leitura que a violência doméstica ainda se faz muito presente na realidade das mulheres.

  • Relação da vítima com o agressor: Os conjugues e os ex-conjugues apareceram como os principais agressores com 27,6% e 8,5% respectivamente dos casos.

  • Principais tipos de violência identificadas: violência física 44,2% dos casos; violência psicológica ou moral acima de 20% e a violência sexual é 12,2%.

Segundo a pesquisa do IPEA “Violência contra a mulher: feminicídio no Brasil” os dados apontam que 61% dos óbitos foram de mulheres negras isso em todas as regiões, com exceção do Sul. A pesquisa destaca a elevada proporção de óbitos de mulheres negras nas regiões Nordeste (87%), Norte (83%) e Centro-Oeste (68%). 
 
No meu entendimento,essa violência tem origem no machismo, na visão conservadora e preconceituosa quanto ao papel social da mulher que que dita o seu comportamento e a sua sexualidade, entre outras questões.

Esse dados apontam que a violência contra as mulheres no Brasil tem um viés racial e de gênero e a cada dia tem apresentado dados preocupantes. Nesse sentido é imperativo maior investimento em politicas públicas de empoderamento das mulheres em todos os aspectos - educacionais, habitação, geração de renda e trabalho, etc – e ações preventivas e educativas voltadas para os homens em uma tentativa de quebrar esse ciclo de violência.

Texto elaborado por Wilka França

Fontes consultadas:

Casa-Grande e Senzala - Fonte de Pesquisa e Inspiração






Um dos livros mais importantes para a compreensão da história da formação do povo brasileiro, Gilberto Freyre narra com destreza o processo de ocupação  do nosso solo, bem como a exploração do povo negro.

Segue alguns trechos do capítulo I para apreciação: 



“A miscibilidade, mais do que a mobilidade, foi o processo pelo qual os portugueses compensaram-se da deficiência em massa ou volume humano para a colonização em larga escala...a intima convivência...social e sexual com raças de cor, invasora ou vizinhas...”(pg. 70-72)

“Diante do que torna-se difícil, no caso do português, distinguir o que seria aclimatabilidade de colonizador branco – já de si duvidoso na sua pureza étnica...- da capacidade de mestiço, formado desde o primeiro momento pela união...sem escrúpulos nem consciência de raça com mulheres da vigorosa gente da terra.”(pg. 73)

“A falta de gente que o afligia, mais do que a qualquer outro colonizador, forçando-o a imediata miscigenação...Vantagem para sua melhor adaptação, senão biológica, social.”(pg. 75)“... navegação a vapor...: veio beneficiar grandemente as populações tropicais.” (pg.76)

“O português teve de mudar...de trigo para a mandioca;”(pg 76)

“O colonizador português foi o primeiro entre os colonizadores modernos a deslocar a base da colonização tropical da pura extração de riqueza mineral, vegetal ou animal -... – para a de criação local de riqueza.”(pg. 79)

“‘colônia de plantação’... a utilização e o desenvolvimento de riqueza vegetal pelo capital e pelo esforço do particular;... o aproveitamento da gente nativa...” (pg.79)

“... mistura de raças, a agricultura latifundiária e a escravidão...” (pg.80)

“’heterogeneidade racial’ um período, não português, mas promiscuo...” (pg. 81)

“...descriam de Deus...usar de feitiçarias...crimes místicos ou imaginários...Em um país de formação antes religiosa do que etnocêntrica, eram esses os grandes crimes e bem diversa da moderna, ..., a perspectiva criminal...pelo crime de matar o próximo, ... o delinquente não... ficava sujeito a penas mais severas que a de ‘pagar de multa uma galinha’...” (pg.82)

Por Thiago Madeira

A população negra brasileira

Estudo do Ipea descreve trajetória da população negra comparada à branca e aponta demandas por políticas públicas
por Paulo Daniel — publicado 20/11/2011 08:32, última modificação 20/11/2011 08:52
negros
Foto: Agência Brasil
O dia da Consciência Negra, 20 de novembro, é uma data importante para lembrar a resistência de negros (as) à escravidão e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre a inserção do (a) negro (a) na sociedade brasileira.
Para compreender e refletir como está a população negra brasileira, recentemente, o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) publicou uma pesquisa intitulada 
A Dinâmica Demográfica da População Negra Brasileira em que analisa, com base nos dados do Censo demográfico de 2010, descrevendo a trajetória da população negra e suas componentes (fecundidade e mortalidade) comparada à branca e aponta algumas implicações para a demanda por políticas públicas. Vamos as principais constatações do estudo:
Primeiro; população branca era maior que a negra entre 1980 e 2000. Em 2010, esta situação se inverteu (97 milhões de pessoas se declaram negras e 91 milhões de pessoas se declararam brancas). Isso pode ser decorrente da fecundidade mais elevada encontrada entre as mulheres negras, mas, também, de um possível aumento de pessoas que se declararam pardas no censo de 2010. Como resultado, a taxa de crescimento da população negra entre 2000 e 2010 foi de 2,5% ao ano e a da branca aproximou-se de zero.
Segundo; o aumento da proporção de domicílios chefiados por mulheres guarda estreita relação com o aumento da participação feminina no mercado de trabalho. Houve um aumento na participação tanto das mulheres negras quanto das brancas, mais expressivo para as últimas. Estes fatores provocaram algumas mudanças nas características dos domicílios brasileiros, alterando as relações tradicionais de gênero: mulher cuidadora e homem provedor. Um dos indicadores dessas transformações é dado pelo aumento da contribuição das mulheres para a renda das suas famílias, o que ocorreu nos dois grupos populacionais. Entre as brancas, essa passou de 32,3% para 36,1%, e, entre as negras, o aumento foi de 24,3% para 28,5%.
Terceiro; em uma comparação sobre o padrão de mortalidade por idade e causas dos dois grupos populacionais (brancos e negros), com base em informações do Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde e as coletadas pelos censos demográficos. Observou-se que, entre os homens, a segunda causa mais importante de óbitos na população negra foram as externas e na branca, as neoplasias. Já a terceira causa entre os negros foram as neoplasias e entre os brancos, as externas. Dentre as externas, as agressões (homicídios) foram, em 2001, as principais causas de morte tanto na população negra quanto na branca. Em 2007, apenas entre os negros os homicídios predominaram. Um detalhe importante; esse tipo de óbito entre os negros é mais frequente entre 15 e 29 anos e é responsável por, aproximadamente, 50% do total de óbitos entre a população negra masculina.
Analisando o estudo do IPEA, pode-se observar que há o início de um processo de mudança em como as pessoas se veem. Passam a ter menos vergonha de dizer que são negras; passam a não precisar se branquear para se legitimarem socialmente. Essa mudança é um processo surpreendentemente linear, surpreendentemente claro e, ao que tudo indica, ainda não terminou.
Na medida em que o debate da identificação racial ganha as páginas dos jornais e a sociedade vê que é um tema legítimo; na medida em que negros são apresentados nas telenovelas como personagens poderosos e não apenas empregados domésticos; na medida em que negros são vistos, como por exemplo, compondo o Supremo Tribunal Federal e ocupando os mais diversos cargos na política; na medida em que o Movimento Negro sai da marginalidade e ocupa espaços no debate político, a identidade negra sai fortalecida, não é que o Brasil esteja tornando-se uma nação de negros, mas, está se assumindo como tal.
Entretanto, a mobilidade social do(a) negro(a), ou seja, sua ascensão relativa ao conjunto da sociedade, mantém-se em patamares residuais. Não houve alteração do quadro de oportunidades no mercado de trabalho, principal fonte de renda e de mobilidade social ascendente. A conclusão que se impõe é que, a despeito dos avanços registrados, a situação da população negra no país continua bastante vulnerável. O que contribui de forma significativa a melhora da população negra brasileira é o avanço da ação do Estado em termos das políticas distributivas de cunho universal atuando no sentido de combater a pobreza e a desigualdade de renda.
Tal quadro vem reforçar a necessidade de implementação de políticas dirigidas para a população negra. Políticas que, em curto espaço de tempo, possam garantir uma maior eqüidade de oportunidade e de padrão de vida.

Por Thiago Madeira
Fonte: Revista Carta Capital - publicado 20/11/2011 Acesso em 10/07/2014.

FEMINISMO NEGRO: SOBRE MINORIAS DENTRO DA MINORIA



Feminismo negro: sobre minorias dentro da minoria
As necessidades das mulheres negras são muito peculiares e sem que seja feita uma profunda análise do racismo brasileiro, é impossível atender às urgências do grupo
Por Jarid Arraes
A origem
O Feminismo Negro é um movimento social e um segmento protagonizado por mulheres negras, com o objetivo de promover e trazer visibilidade às suas pautas e reivindicar seus direitos. No Brasil, seu início se deu no final da década de 1970, a partir de uma forte demanda das mulheres negras feministas: o Movimento Negro tinha sua face sexista, as relações de gênero funcionavam como fortes repressoras da autonomia feminina e impediam que as ativistas negras ocupassem posições de igualdade junto aos homens negros; por outro lado, o Movimento Feminista tinha sua face racista, preterindo as discussões de recorte racial e privilegiando as pautas que contemplavam somente as mulheres brancas.
O problema da mulher negra se encontrava na falta de representação pelos movimentos sociais hegemônicos. Enquanto as mulheres brancas buscavam equiparar direitos civis com os homens brancos, mulheres negras carregavam nas costas o peso da escravatura, ainda relegadas à posição de subordinadas; porém, essa subordinação não se limitava à figura masculina, pois a mulher negra também estava em posição servil perante à mulher branca. A partir dessa percepção, a conscientização a respeito das diferenças femininas foi ganhando cada vez mais corpo. Grandes nomes da militância feminina negra foram fazendo história, a exemplo de Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro. A atenção e a produção de conteúdo foram dedicadas a discussões de raça e classe, buscando romper uma zona de conforto que o ativismo feminista branco cultivava, especialmente aquele que limitava sua ótica aos problemas das mulheres de boa condição financeira e acesso à educação.
No entanto, isso não foi suficiente para que o Feminismo Hegemônico passasse a reconhecer as ativistas negras e resgatasse as memórias das mulheres que lutaram na linha de frente de diversos movimentos sociais. Para as meninas e mulheres que vêm a conhecer os movimentos pelos direitos da mulher, há um vácuo de modelos negros nos quais se espelhar, mas não por falta de pessoas atuantes e sim por causa da invisibilidade. É preciso que haja a iniciativa de buscar figuras inspiracionais, caso contrário os nomes mais celebrados serão extremamente limitados.
Rompimento e necessidade do feminismo negro
A cisão das mulheres negras com o movimento feminista hegemônico nunca foi fácil. Por deterem o domínio racial e contarem com maior número de lideranças consolidadas, as feministas brancas resistem às questões das mulheres negras. Grande parte das reclamações relatadas são repetições de um único discurso: as negras criam caso, plantam confusão e discórdia, enxergam racismo onde há boas intenções e não são compreensivas.
Isso acontece porque há a tendência de englobar as mulheres a partir de uma única característica em comum: o gênero. Supondo que todas passam pelos mesmos problemas e desejam as mesmas coisas, o Feminismo que não se atenta para as especificidades de cada grupo feminino acaba atuando sob omissão, muitas vezes deliberada. As necessidades das mulheres negras são muito peculiares e sem que seja feita uma profunda análise do racismo brasileiro, é impossível atender às urgências do grupo.
A luta das feministas negras é uma batalha contínua para nivelar seu lugar ao lugar das mulheres brancas. Isso, por si, levanta a importante reflexão sobre a representação feminina na mídia, seu espaço no mercado de trabalho, o lugar de vítima da violência sexual, o protagonismo da maternidade, entre outros temas, pois se há tanto por que as mulheres brancas precisam lutar, é bastante preocupante o fato de que as mulheres negras nem sequer conquistaram igualdade quando em comparação com outros indivíduos do seu próprio gênero.
Dados, estatísticas
Para contextualizar os abismos raciais que separam as mulheres, é possível usar alguns dados de pesquisas institucionais do IBGE, IPEA e OIT.
. Mercado de trabalho
Em 2013, a PEC 66 foi aprovada, transformando em lei a reivindicação de empregadas domésticas, que há décadas lutavam por direitos trabalhistas. Não por acaso, as mulheres negras compõem a maioria de trabalhadoras do lar (61,7%) e mesmo com o avanço trazido pela Proposta de Emenda Constitucional, a realidade ainda permanece distante do desejado. As funcionárias que exigem seus direitos muitas vezes acabam despedidas e, sob ameaças e assédio moral, é difícil efetivar a conquista.
Enquanto mulheres brancas lutam para que seus salários (média de R$ 797,00) sejam equiparados aos salários dos homens brancos (média de R$ 1.278,00), as mulheres negras recebem ainda menos (média de R$ 436,00). Conseguir um emprego formal, uma boa colocação e ingressar no ensino superior também são dificuldades típicas daquelas que possuem a pele negra.
Outra face perversa do racismo atrelado ao sexismo é a jornada tripla de trabalho. As trabalhadoras se distanciam de seus lares e filhos para que possam prover sustento, muitas vezes cuidando dos filhos das mulheres com melhor condição financeira, e, por não possuírem os recursos, não podem contratar alguém para prestar assistência às crianças e fazer manutenção em suas próprias casas. As creches não atendem à demanda e as funções das mulheres pobres se acumulam. Chegar em casa após um longo dia de labuta e, ainda assim, precisar cumprir mais tarefas domésticas é uma realidade exaustiva que pode ser relatada por milhares de mulheres negras.
. Aborto e direitos reprodutivos
No Brasil, o aborto é legal e gratuito somente se a gravidez for gerada por um estupro, causar risco de morte para a mãe ou no caso do feto ser anencéfalo. Apesar disso, mulheres negras e pobres encontram resistência do sistema de saúde, sendo coagidas por equipes médicas e por religiosos de suas comunidades. Por não contarem com suporte e não terem recursos financeiros que paguem clínicas particulares, muitas dessas mulheres jamais conseguem realizar o aborto.
Se o foco é o aborto por escolha, ainda não legalizado em nosso país, as mulheres negras também integram a parcela de maiores vítimas da ilegalidade. Por causa das complicações geradas por abortos clandestinos, as mulheres negras morrem em números altíssimos e também estão mais vulneráveis ao indiciamento criminal, caso sobrevivam.
A violência obstétrica também é um marco na vida das mães negras e pobres. Negligenciadas nas filas do SUS, elas são colocadas em segundo plano para que mulheres brancas – consideradas mais frágeis e sensíveis – sejam priorizadas, independente da ordem de chegada.
0  0  0  00 000   feminismo. Violência doméstica e sexual
A cor é fator relevante quando analisamos os casos de agressão e assassinato por parte de companheiros e ex-companheiros. As negras são mais de 60% das vítimas de feminicídio, exatamente porque não contam com assistência adequada e estão mais vulneráveis aos abusos das próprias autoridades.
Já no aspecto da sexualidade, das mulheres brancas é esperado o comportamento moderado e sensualidade com limitações, porém, as mulheres chamadas de “mulatas” são amplamente exotificadas e tratadas como objetos disponíveis para a exploração. O argumento de quem enxerga as mulheres negras como mais disponíveis para investidas sexuais é de que elas são mais provocantes, que seus corpos suportam atos mais intensos ou até mesmo que não podem negar os assédios.
A cultura do estupro é vigente desde a colonização do Brasil, quando mulheres negras foram estupradas por homens brancos e usadas em políticas oficiais de miscigenação, com o fim de branquear a população. A mentalidade daquela época se mantém forte na contemporaneidade e é por isso que são tão naturalizados aspectos culturais como a escolha anual da Globeleza. A posição de mulata que expõe seu corpo é tão relacionada exclusivamente à mulher negra, que nem sequer se estende o concurso sexista para mulheres de outras raças.
Enquanto as mulheres brancas também são vítimas de violência e estupro, é preciso salientar as formas distintas pelas quais o machismo atua: as brancas são violentadas exclusivamente por seu gênero, as negras também se tornam vítimas do preconceito racial. Um bom exemplo é a Marcha das Vadias, atualmente realizada em quase todos os estados brasileiros. Há diversos grupos do Feminismo Negro que não participam dos protestos e criticam o uso de palavras como “vadia” e “puta”, afirmando que as mesmas não podem ser ressignificadas pelas negras, pois o estigma que carregam é muito forte e o mais urgente é romper representações hipersexualizadas. Partindo desse pressuposto, o melhor seria lutar para ser reconhecida como ser humano intelectual, capaz de conquistas diversas e ocupação em papéis ilimitados. Não obstante, esse posicionamento não é unânime; diversas mulheres negras participam das marchas e ocupam posições nas equipes de organização.
. Padrão de beleza e mídia
Cabelos lisos e loiros, narizes finos, bochechas rosadas, olhos azuis e axilas claras são alguns exemplos de como a estética ocidental celebra características brancas como melhores e mais belas. Por causa dessa padronização, atrizes negras são minoria absoluta e quase nunca são convidadas para estrelarem na televisão.
Embora a redução da mulher ao papel de “musa” seja machista, vale a pena dedicar um pouco de reflexão ao racismo explícito que passa todos os dias sem muitos protestos. A posição não é ideal para nenhuma mulher, mas as causas que levam a exclusão das mulheres negras são inegavelmente racistas.
. Mulher negra X homem negro
O debate interno dentro do Feminismo Negro e entre pessoas negras sobre as múltiplas faces do machismo é bastante inflamado. Grande parte da luta feminina se dá contra o sexismo, a imposição de papéis e a violência. Só que o problema é ainda mais profundo e há um incômodo severo por parte de muitas mulheres negras, que se sentem rejeitadas pelos homens negros. A ideia de que são sexualmente usáveis e descartáveis é tão forte que a confirmação rompe as paredes dos grupos militantes: o Censo 2010 revelou que as mulheres negras são as que menos se casam, sendo a maioria na categoria de “celibato definitivo”, ou seja, que nunca tiveram um cônjuge.
fem negEssa discussão é muito complexa e delicada, já que perpassa o desconforto em face do racismo e a solidão que as mulheres negras enfrentam. Por isso não é incomum ver protestos e críticas incisivas diante de um rapper ou jogador famoso que apresente sua namorada loira.
Uma outra perspectiva das relações entre mulheres e homens negros se dá pelos âmbitos familiares. Uma mulher branca de classe média dificilmente se preocupará com a violência policial que ceifará a vida do irmão, pai ou filho. Essa é uma pauta muito precisa das feministas negras e revela como até mesmo as relações de gênero se desdobram de maneiras pouco delimitadas pelo puro debate sobre o machismo.
Apesar dos assuntos que dizem respeito à heterossexualidade, há também a necessidade de se abordar as vivências das mulheres negras que são lésbicas e bissexuais, que precisam lidar com investidas invasivas, lesbofobia e discriminação.
A conscientização
Os dados citados são apenas alguns exemplos das disparidades entre mulheres brancas e negras, mas são fundamentais para se compreender a necessidade de uma vertente específica dentro do Feminismo. Afunilar demandas é uma prática comum dentro dos movimentos sociais. Não há porque manter uma falsa impressão de homogeneização quando a diversidade é capaz de produzir muito mais união e potencial comunitário. Reconhecendo e respeitando as diferenças e características subjetivas das mulheres que fazem a luta feminista, é possível contemplar as necessidades urgentes de cada categoria. A diversidade sexual, as variáveis nas identidades de gênero, os fatores de classe, raça e etnia, entre outras especificidades, estão se transformando em abordagens prioritárias que exigem conscientização imediata.
O Feminismo Negro existe, desde seu surgimento, para emergir as questões periféricas repudiadas pelostatus quo. Ele é, em primeiro lutar, um ato de resistência motivado pela existência livre. A população negra é mais de 50% do Brasil; portanto, o esquecimento dessas mulheres seria, no mínimo, o esquecimento de uma importante parcela de cidadãs.

Por Thiago Madeira
Fonte: http://www.revistaforum.com.br/

terça-feira, 8 de julho de 2014

A Mulher e sua luta contra a discriminação no ES

Um pouco de história...

A História revela que a mulher, sempre foi discriminada em todas as épocas e o seu papel na sociedade nem sempre foi considerado preponderante e fundamental. Cantada em prosa e em verso, mas como mãe, de Pitágoras e Santo Agostinho, muito já se propalou sobre o malefício trazido pela criação da mulher. E, nas antigas civilizações, o valor dado à mulher igualava-se ao mesmo valor dado aos escravos, isto é, nenhum.

Essa discriminação, que nada tem a ver com a natureza, está na Bíblia, no Velho Testamento, com o tratamento pejorativo dado a mulheres como Eva, que ao “induzir” Adão à tentação, comprometeu a felicidade humana, responsável pela expulsão do Paraíso, e Dalila, quando tirou a força moral de Sansão. Nem mesmo Paulo de Tarso deixou de discriminar quando disse: “quanto às mulheres, estejam caladas nas Igrejas, pois é coisa indecente para a mulher, o falar em público”. O Alcorão, então, menciona restrições deprimentes.

Na sociedade moderna, até relativamente pouco tempo, a mulher tinha o seu casamento negociado pelo pai, não aprendia a ler, nem podia raciocinar, coisas que o homem fazia por ela, como não decidia nada sem a autorização do marido e, muito menos, tinha direito ao voto, conquista somente alcançada em 1893 na Nova Zelândia; em 1903 na Austrália; em 1906 na Finlândia; em 1913 na Noruega. A Inglaterra e os Estados Unidos, países pioneiros do movimento em prol do sufrágio feminino, só o estabeleceram, com restrições, em 1918 e 1920 respectivamente. No Brasil, só a partir de 1934.

A luta contra a discriminação da mulher é muito antiga e, à luz dos fatos, teve seu início em 1793, quando Olimpe de Gougés foi guilhotinada, por ter cometido o crime de redigir uma “DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA MULHER E CIDADÔ. Entretanto, muitos têm surgido em defesa da mulher e de sua imagem. No Evangelho, a exaltação à Maria de Nazaré e as citações sobre Marta e Madalena. Coube a Jesus Cristo, o pioneirismo do verdadeiro feminismo, ao dar a Maria Madalena, a missão divina de levar aos apóstolos a Boa Nova da Ressurreição. E, bem mais recente, vale citar Diderot, autor de uma importante obra – “A Religiosa”, que valoriza e resgata a mulher. Também as óperas de Verdi e Puccini, sem dúvida, assim como, os balés, ressaltam a figura feminina. Outras mulheres famosas, souberam sobrepujar-se a essas discriminações, como por exemplo, George Sand, Mme. Stael e Simone de Beauvoir, incluídas aqui as ministras de França, que muito fizeram na busca de novos conceitos em prol da mulher. Citemos ainda no mundo, exemplos femininos de coragem, estoicismo, força, luta e sofrimento: Helen Keller, Amelie Boudet e Anne Frank entre muitas outras, inclusive de mulheres nascidas no Brasil.

Em sua luta em busca de um espaço, a mulher brasileira confirma uma tomada de posição dentro da sociedade, no lar, no trabalho profissional, junto à família. A sua presença no Brasil de hoje, está nas universidades, nos centros de cultura, nas Academias de Letras e nos mais variados setores da ciência e da vida político-social brasileiros. Também no Espírito Santo, temos as nossas mulheres pioneiras, que souberam, com inteligência e dignidade, lutar por um posicionamento na política, na administração pública, nas ciências, letras e artes, na aviação e na educação, além de outras atividades importantes ao desenvolvimento do Espírito Santo contemporâneo. Ficaria por demais extenso enumerá-las todas, mas importante se faz o registro de alguns exemplos que apontam a presença de mulher capixaba, dentro da história do Espírito Santo, marcando a luta bonita e expressiva de suas conquistas:

D. Luiza Grimaldi (ou Grinalda?) – A mulher que até os tempos atuais, governou o Espírito Santo, sucedendo ao seu marido, o Donatário Vasco Fernandes Coutinho Filho, quando de seu falecimento. A Donatária governou a antiga Capitania do Espírito Santo, de 1589 a 1593. Soube ser generosa ou enérgica quando se fez necessário, ao reprimir a tentativa de invasão pelo corsário inglês Thomas Cavendish em 1692. Coube ainda a D. Luiza Grimaldi, a assinatura de doação da área do morro da Penha, em Vila Velha, neste Estado, aos Irmãos Franciscanos, onde Pedro Palacios ergueu a primeira capela de São Francisco e depois os alicerces do Convento da Penha – a nossa mais importante relíquia histórica.

D. Maria Ortiz - A nossa heroína contra o invasor estrangeiro.

Dra. Adalgisa Lobo de Azevedo Cruz – A primeira farmacêutica. Diplomou-se pela Faculdade de Farmácia e Odontologia, da Universidade do Rio de Janeiro, em 26 de junho de 1903.

Dra. Odete Braga Furtado – A primeira advogada. Diplomou-se pela Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, em 18 de dezembro de 1928. A primeira mulher a ingressar no Banco do Brasil. No período de 1920 a 1924, exerceu as funções de Chefe de Gabinete no governo do Coronel Nestor Gomes.

Dra. Adalgisa Amanda da Fonseca – A primeira mulher médica. Diplomou-se em 30 de dezembro de 1926, pela Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro. Exerceu, a sua profissão sempre em Vitória, dentro das especialidades de clínica médica, ginecologia e pediatria.

Dra. Euridice O´Reilly de Souza – A mulher dentista pioneira. Formou-se pela Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade do Rio de Janeiro, em 13 de dezembro de 1922.

Dra. Maria Lúcia da Almeida Viana – A primeira parteira formada. Diplomou-se em 1924, pela Escola Nacional de Medicina da Universidade do Brasil.

Magdalena Piza – Professora e educadora de grandes méritos. Prestou relevantes serviços à causa educacional. A primeira mulher a exercer o cargo de secretário do Estado, ocupando a pasta da Educação e Cultura no Governo Santos Neves.

Geny Grijó – A primeira mulher vereadora, junto à Câmara Municipal de Vitória. Renunciou ao mandato em 1954, para dedicar-se às atividades no campo da assistência social em nosso Estado. Concluiu o curso de Assistente Social, no Instituto Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Maria Stela de Novais – Historiadora, professora catedrática de Ciências Naturais e escritora laureada pela Academia Brasileira de Letras, por sua importante obra biográfica “Um Bispo Missionário” (a vida de D. Fernando de Souza Monteiro, o 2° bispo do Espírito Santo). Maria Stela deixou uma bagagem literária valiosa, destacando-se a “História do Espírito Santo”. “Lendas Capixabas” e outros.

Judith Leão Castello Ribeiro – Professora, educadora emérita e a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Assembléia no Estado do Espírito Santo, por quatro legislaturas seguidas, de 1947 a 1963. A primeira mulher eleita para a Academia Espírito-santense de Letras, vencendo a resistência à introdução da mulher naquela importante casa de cultura. Antes, em 18 de junho de 1949, fundou a Academia Feminina de Letras do Espírito Santo, sob o patrocínio da Academia Espírito-santense de Letras “como solução do problema das candidaturas femininas”, sendo eleita a primeira Presidente de uma diretoria integrada por um grupo de intelectuais, Ana de Castro Mattos, Zeny Santos, Arlete Cypreste, Leonor Miguel Feu Rosa, Doralice de Oliveira Neves, Maria José Albuquerque e Virgínia Tamanini.

Emiliana Emery – A mulher pioneira na indústria. Fundou uma fábrica de doces caseiros em Guaçui no sul do estado, na década de 30. Com o direito ao voto feminino alcançado em 1934, foi à primeira mulher eleitora. O seu título de eleitor tinha o nº 1.

Ypoméa Braga de Oliveira – Humanista, educadora, escritora e poetisa de muita sensibilidade. Arlete Cypreste em “Exaltação à Arte e à Personalidade” definiu-a como a “vitória do espírito sobre humano, da imortalidade sobre o fim, do eterno sobre a matéria”. Paulista de nascimento, iniciou sua vida literária em Juiz de Fora (MG), fixando residência no Espírito Santo (Cachoeiro do Itapemirim) em 1927, para onde se transferiu com a família. Ypoméa, acometida em 1953 de uma progressiva perda de visão, escreveu seu mais bonito poema – “Halos de Luz” – que retrata, ao lado de uma profunda melancolia, a grandiosidade de um momento lúcido de reflexão. A poetisa é patrona de uma cadeira na Academia Feminina de Letras do E. Santo.

Rosa Helena Schorling – A primeira aviadora no Espírito Santo e a primeira paraquedista no Brasil. Professora (Colégio do Carmo) formada em 1936 e enfermeira diplomada em 1942, na Escola da Cruz Vermelha do Brasil. Obteve o “brevê” de aviadora pelo Aeroclube do Brasil, em 1939, e como paraquedista, levantou o primeiro lugar na prova de salto “Cruzeiro do Sul”, realizada no Rio de Janeiro em 1940. Concluiu ainda no Rio de Janeiro, em 1950, o curso de paraquedismo militar.

Maria Antonieta Tatagiba – Como poetisa, foi à primeira mulher a editar um livro de poesias, sob o título “Frauta Agreste” em 1927. O seu livro, com ilustrações de Raul Pederneiras, foi editado pela livraria Leite Ribeiro, no Rio de Janeiro. Maria Antonieta Tatagiba prestou excelentes serviços ao magistério no Espírito Santo. Patrona da Cadeira nº 32 da Academia Espírito-santense de letras e a única mulher a receber tal honraria.

Haydée Nicolussi – Professora, museóloga, poetisa e escritora. Participou ativamente de movimento político-social no Brasil, na década de 30. Poetiza consagrada, publicou em 1944, “Festa na Sombra” seguindo-se “A Sabedoria da China e da Índia”, “Goethe e a Revolução Francesa”, em traduções inglesa e francesa respectivamente. Desenvolveu estudos importantes de antropologia e numismática”, no Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde cursou as especialidades de museologia, heráldica, epigrafia e técnica de museu. Foi a primeira capixaba a ingressar na Universidade de Sorbonne em Paris, onde diplomou-se com mérito.

Zilma Coelho Pinto – Professora pública e a grande pioneira na luta contra o analfabetismo no Espírito Santo. No Município de Cachoeiro de Itapemirim, desenvolveu uma luta sem tréguas, criando e dirigindo quarenta e um postos da “Campanha de Alfabetização no Espírito Santo”, sediada naquele município. A “Louca do Itapemirim”, como se tornou conhecida por desenvolver um trabalho difícil e nem sempre compreendido, enfrentou e venceu muitas barreiras de preconceitos. O seu dignificante trabalho, valeu-lhe a honraria de inclusão na relação de “Brasileiros Eméritos”, com biografia publicada em 1946 na revista “Honra ao Mérito”, da Standard Oll of Brasil.

Arlete Cypreste – Professora, radialista, poetisa e escritora. Tem várias obras publicadas, destacando-se “Jones Santos Neves – Um Grande Administrador”, “Contos Para os meus Filhos” e “Exaltação à arte e à Personalidade”, dedicado à poetisa Ypoméa de Oliveira. Arlete Cypreste é membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do E. Santo. Com trabalhos publicados nos jornais e revistas de Vitória e vários estados da federação, foi incluída em duas coletâneas de Aparicio Fernandes – “Escritores do Brasil” e “Poetas do Brasil”.

Zeny Santos – A minha saudosa e querida companheira da Academia Feminina de Letras e de jornalismo, desempenhou por muitos anos o cargo de secretária da Associação Espírito-santense de Imprensa (AEI). Além disso, colaborou intensamente em todos os jornais de Vitória. Em São Paulo, onde depois residiu e faleceu, fundou e presidiu a “Sociedade Espírito-santense”. Nascida em Vitória, após os seus estudos, dedicou-se à literatura, através da poesia e da crônica. Escreveu o seu mais lindo poema “Cantigas de Minha Terra”, dedicada ao IV Centenário de Vitória. Publicou dois livros: “CACOS” e “SAVEIROS DA ILHA DOS CISNES” (crônicas).

Ida Vervloet Finamore – A minha querida conterrânea de Santa Leopoldina (ES), é professora, escritora, poetisa e estudiosa das artes e música. Popole, como a chamamos na intimidade, mulher de muita fibra e sensibilidade poética, teve as suas crônicas esparsas em jornais e revistas de Vitória e em outras cidades brasileiras. Publicou dois livros, bem recebidos pela critica literária: “Páginas Soltas” e “O Meu Mundo”.

Anna de Castro Mattos – Formada pela Escola Normal Pedro II e bacharel em direito pela faculdade de Direito do Espírito Santo, é presidente, há longos anos, da Academia Feminina de Letras. Annete tem uma grande produção literária publicada em diversos jornais: “A Semana” (São Pedro de Itabapoana); “A voz do Povo” (Bom Jesus do Norte); “O Lynce” (Juiz de Fora – MG); “O Lume” (Blumenau –SC); “O Timbagi” (Monte Alegre – PR); “O Lume” (rev. da Academia Feminina de Letras, Porto Alegre – RS); “Centro Português” (Santos – SP). Iniciou a vida literária nas folhas do antigo “Diário da Manha” em Vitória, seguindo-se “A Gazeta”, “A Tribuna”, “Vida Capixaba” e “O Diário”. Publicou “Dedo Minguinho” (Crônicas – 1949, Música, Linguagem Universal, Chôpin – Alma da Polônia” - 1953), “Três Temas Capixabas” (1982) e “Relato de Uma Vida” (Obra biográfica em homenagem a seu pai, o geólogo Carlos Justiniano de Mattos), em 1988.

Virgínia Gasparini Tamanini – Professora, educadora, poetisa e escritora. Em 1947 foi escolhida “A Melhor Poetisa do E. Santo”. Além de membro da “Academia Feminina de Letras” e da “Arcádia Espírito-santense”, ocupa uma cadeira na Academia Espírito-santense de Letras. Publicou “A Voz do Coração”, (poesias), em 1942, seguindo-se outros: “O Mesmo Amor Nos Corações” (1949), “Cântico À Minha Terra”, em homenagem ao IV Centenário da cidade de Vitória (1951) e “Maria Ortiz”, dedicado à heroína espírito-santense (1951). O romance “KARINA” vem sendo adorado nas escolas do Espírito Santo, por recomendação oficial dos setores culturais do Estado.

Oportuno se faz lembrar, a luta e o sofrimento da mulher negra e a sua importante contribuição para a agricultura capixaba. Com o trabalho escravo participou da formação agrícola do Espírito Santo colonial, trabalhando de sol a sol nos canaviais, nos algodoais, nos roçados e feijão, mandioca e milho, nos arrozais e nos cafezais, até ao século XIX. O registro histórico é do cientista francês, Augusto de Saint-Hilaire, em sua importante obra “Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce” (tradução de Milton Amado) no século XIX. Destacando a presença da negra escrava, Saint-Hilaire ressalta a sua constante atividade nas lavouras capixabas, mais precisamente, nas cercanias de Jucutuquara, onde se faziam viçosas as lavouras das terras do Capitão-Mor Francisco Pinto. Ali, sob a direção do branco, a mulher negra produzia, diariamente, um alqueire de arroz descascado, no mais fatigante e desgastante trabalho braçal, trabalho de pilão. Ainda no século XIX, com a chegada das mais diversas nacionalidades de imigrantes europeus, registre-se o trabalho estoico da mulher imigrante, enfrentando mosquitos e adversidades em busca de sua aculturação, abrindo picadas nas matas, sucumbindo, muitas delas, ao tifo e à febre amarela. Essas mulheres de tanta coragem integram o destino histórico que, a partir das grandes colheitas nos cafezais, permitiu novos caminhos e novos horizontes, em termos de desenvolvimento econômico para o Espírito Santo.

Com humildade e o coração repleto de felicidade, recebo a honraria que hoje me concede o titulo de membro efetivo desta “Casa do Espírito Santo” e de “Domingos Martins” – O Instituto Histórico e Geográfico.

À essas mulheres, todas elas, pioneiras ou estudiosas da cultura do Espírito Santo, dedico a honraria que hoje recebo. É preciso, sempre, resgatar a memória, refazendo possíveis enganos e injustiças.
Muito Obrigado.


Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. N 39, ano 1989Autor: Yvonne Amorim (Discurso de posse no Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, em 14/06/1989)Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2013
Fontes de Referências: “O Estado do Espírito Santo E Os Espírito-santenses” (Eurípedes Queiroz do Valle); “História do E. Santo” (Maria Stela de Novais); depoimentos pessoais