quarta-feira, 16 de julho de 2014

A investigação do quesito cor/raça nas pesquisas sobre violência contra a mulher ainda é pouco explorada

A violência contra a mulher é um fenômeno presente nas diferentes classes sociais e atinge mulheres de todas as cores/raças e etnia. No entanto, pode-se dizer que grande parte das mulheres que recorrem aos serviços públicos de segurança e justiça, lançando a questão na cena pública, são classificadas ou se autodeclaram como pardas, pretas e/ou negras.
 
Em Vitória/ES, estudos realizados por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (NADER,2013; CORTEZ, 2012) apontam para essa realidade.  
 
Cortez (2012), em sua tese de doutorado onde foram analisados 613 Boletins de Ocorrência registrados na Delegacia de Atendimento à Mulher de Vitória, durante seis meses do ano de 2010, relacionados à violência doméstica e familiar contra mulheres praticadas por parceiros e ex-parceiros apontou que "A maioria das denunciantes declarou-se parda (361; 58,8%), 201 (32,9%) declararam-se brancas e 48 (7,8%) disseram ser negras"(CORTEZ, p. 83, 2012).
 
No entanto, o quesito cor/raça ainda tem sido negligenciado em levantamentos e pesquisas mais abrangentes sobre a violência contra a mulher. Em Vitória/ES, pesquisa publicada pelo Instituto Jones Santos Neves em 2008 que utilizou como fonte de dados os boletins de ocorrência registrados na DEAM de Vitória nos anos de 2004 a 2006 não levantou o quesito cor/raça das denunciantes (IJSN, 2008). O documento Mapa da Violência 2012: Homicídio de Mulheres no Brasil apontou que a  cidade de Vitória/ES ocupa o primeiro lugar no ranking de homicídios de mulheres dentre as capitais com uma taxa de 13,2 (em 100 mil mulheres, ocupando a 25ª posição entre 577 municípios pesquisados) no entanto, não apresentou informações sobre o quesito raça/cor.
 
Incluir a investigação deste quesito nas pesquisas e levantamentos sobre a temática da violência doméstica ajuda a desmistificar a ideia de que a violência é democrática e atinge a todos igualmente e nos possibilita pensar em políticas públicas de prevenção e atendimento que possam atingir os diferentes grupos envolvidos.  
 
Como aponta Cardoso (200?) "a ausência da cor nas pesquisas parece desses silêncios carregados de significação. Devemos nos deter com mais atenção sobre o processo pelo qual a cor acaba por desaparecer das pesquisas, que desse modo enfatizam, digamos, a irrelevância sociológica das distinções raciais" mas na verdade, a inclusão do quesito raça/cor pode relevar importantes e necessários  aprendizados.
Bibliografia

INSTITUTO JONES DOS SANTOS NEVES. Violência contra a mulher 2008: ocorrências registradas na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), Vitória – ES 2004 a 2006.Vitória, 2008.
WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2012. Atualização: Homicídio de Mulheres no Brasil. 2012. Disponível em: <http://www.compromissoeatitude.org.br/wp-content/uploads/2012/08/MapaViolencia2012atualizacaoagosto_HomicidiosMulheres.pdf. Acesso em 10 jul. 2014.
CARDOSO, Edson Lopes. A indesejável das pesquisas. 200?. Disponível em: <http://arquivo.geledes.org.br/em-debate/edson-cardoso/6073-a-indesejavel-das-pesquisas>. Acesso em: 10 jul. 2014.
CORTEZ, Mirian Béccheri. “Sem açúcar, com afeto”: estudo crítico de denúncias de violência contra as mulheres e dos paradoxos da judicialização (Tese Doutorado). Universidade Federal do Espírito Santo. Programa de Béccheri Cortez. – 2012. Disponível em: http://portais4.ufes.br/posgrad/teses/tese_3608_.pdf. Acesso em: 10 jul. 2014.
NADER, Maria Beatriz. A vida em desunião: violência, gênero e denúncia. In: ANAIS. XXVII Simpósio Nacional de História. Conhecimento histórico e diálogo social. Natal - RN. 22 a 26 de julho de 2013.

Por:  Ingrid M. Taufner

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