A
violência contra a mulher é um fenômeno presente nas diferentes classes sociais
e atinge mulheres de todas as cores/raças e etnia. No entanto, pode-se dizer que
grande parte das mulheres que recorrem aos serviços públicos de segurança e
justiça, lançando a questão na cena pública, são classificadas ou se autodeclaram
como pardas, pretas e/ou negras.
Em
Vitória/ES, estudos realizados por pesquisadores da Universidade Federal do
Espírito Santo (NADER,2013; CORTEZ, 2012) apontam para essa realidade.
Cortez
(2012), em sua tese de doutorado onde foram analisados 613 Boletins de Ocorrência
registrados na Delegacia de Atendimento à Mulher de Vitória, durante seis meses
do ano de 2010, relacionados à violência doméstica e familiar contra mulheres
praticadas por parceiros e ex-parceiros apontou que "A maioria das denunciantes declarou-se
parda (361; 58,8%), 201 (32,9%) declararam-se brancas e 48 (7,8%) disseram ser
negras"(CORTEZ, p. 83, 2012).
No
entanto, o quesito cor/raça ainda tem sido negligenciado em levantamentos e pesquisas
mais abrangentes sobre a violência contra a mulher. Em Vitória/ES, pesquisa publicada
pelo Instituto Jones Santos Neves em 2008 que
utilizou como fonte de dados os boletins de ocorrência registrados na DEAM de
Vitória nos anos de 2004 a 2006 não levantou o quesito cor/raça das
denunciantes (IJSN, 2008). O documento Mapa
da Violência 2012: Homicídio de Mulheres no Brasil apontou que a cidade de Vitória/ES ocupa o primeiro lugar no
ranking de homicídios de mulheres dentre as capitais com uma taxa de 13,2 (em
100 mil mulheres, ocupando a 25ª posição entre 577 municípios pesquisados) no
entanto, não apresentou informações sobre o quesito raça/cor.
Incluir a
investigação deste quesito nas pesquisas e levantamentos sobre a temática da
violência doméstica ajuda a desmistificar a ideia de que a violência é
democrática e atinge a todos igualmente e nos possibilita pensar em políticas
públicas de prevenção e atendimento que possam atingir os diferentes grupos envolvidos.
Como aponta
Cardoso (200?) "a ausência da cor nas pesquisas parece desses silêncios
carregados de significação. Devemos nos deter com mais atenção sobre o processo
pelo qual a cor acaba por desaparecer das pesquisas, que desse modo enfatizam,
digamos, a irrelevância sociológica das distinções raciais" mas na verdade,
a inclusão do quesito raça/cor pode relevar importantes e necessários aprendizados.
Bibliografia
INSTITUTO JONES DOS
SANTOS NEVES. Violência contra a mulher 2008: ocorrências registradas na Delegacia
Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), Vitória – ES 2004 a 2006.Vitória,
2008.
WAISELFISZ,
Julio Jacobo. Mapa da Violência 2012. Atualização: Homicídio de Mulheres no Brasil. 2012.
Disponível em: <http://www.compromissoeatitude.org.br/wp-content/uploads/2012/08/MapaViolencia2012atualizacaoagosto_HomicidiosMulheres.pdf.
Acesso em 10 jul. 2014.
CARDOSO,
Edson Lopes. A indesejável das pesquisas. 200?. Disponível em: <http://arquivo.geledes.org.br/em-debate/edson-cardoso/6073-a-indesejavel-das-pesquisas>.
Acesso em: 10 jul. 2014.
CORTEZ,
Mirian Béccheri. “Sem açúcar, com afeto”:
estudo crítico de denúncias de violência contra as mulheres e dos paradoxos da
judicialização (Tese Doutorado). Universidade Federal do Espírito Santo.
Programa de Béccheri Cortez. – 2012. Disponível em: http://portais4.ufes.br/posgrad/teses/tese_3608_.pdf.
Acesso em: 10 jul. 2014.NADER, Maria Beatriz. A vida em desunião: violência, gênero e denúncia. In: ANAIS. XXVII Simpósio Nacional de História. Conhecimento histórico e diálogo social. Natal - RN. 22 a 26 de julho de 2013.
Por: Ingrid M. Taufner
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