Bergman de Paula Pereira
Introdução
A importância dos
estudos sobre as mulheres no Brasil nos remete a um passado em que a mulher era
praticamente invisibilizada pelo Estado. Em diferentes tempos históricos não
foram consideradas sujeitos da história e sua função na sociedade era determinada
de acordo com seu núcleo social, regida e administrada pelo Estado. Quando
pensamos em mulher negra, a necessidade de ressignificação histórica é ainda
maior, visto que o grupo social ao qual pertence nunca teve importância em
nenhum momento histórico.
No Brasil, o
movimento feminista adquire um caráter de luta a partir das décadas de 60 e 70,
em meio a um período de crises políticas que nos levou à ditadura militar. Tal
movimento ganha contornos políticos mais combativos e o discurso de igualdade
entre homens e mulheres não fica meramente reduzido à constituição de um núcleo
familiar.
Justiça de gênero,
então, é entendida não somente como uma questão distributiva; engloba em seu
conceito também questões de representação, identidade e diferença. Gênero e direitos
das mulheres são conceitos elaborados para refletir estruturas de poder
solidificadas na dominação e na opressão social vigente em diferentes tempos
históricos, possibilitando reflexões não só em torno da desigualdade de
“gênero”, mas também de “raça”.
A partir da década de
80, o movimento feminista coloca em discussão, de forma pragmática, o papel das
mulheres na sociedade e a função do Estado nessa estrutura. Busca, por meio de
políticas públicas, uma relação mais direta com o Estado, a igualdade de gênero
em diferentes setores da sociedade – com foco principal na divisão sexual do
trabalho, que pode ser entendida como a diferenciação entre homens e mulheres
no que tange à sua relação de poder – e a igualdade racial, com reflexões de
que ser mulher negra é historicamente diferente de ser mulher branca no Brasil,
emplacando uma luta pela igualdade de gênero e fim dos privilégios sociais e
raciais.
É na mesma década de
80 que o movimento de mulheres negras começa a reivindicar de maneira mais
incisiva a igualdade de gênero e raça nas políticas públicas, de forma que não
cabe ao Estado pensar políticas e ações públicas voltadas para mulheres somente
com um caráter universalista, mas, sim, desenvolver políticas públicas
específicas de gênero e raça.
As políticas públicas
direcionadas a mulheres ganham novos rumos no final da década de 80 com a
criação das Coordenadorias e Secretarias governamentais, responsáveis pelo
desenvolvimento de políticas que visam a equidade de gênero através de
políticas específicas para mulheres.
Estado e Gênero
Perceber que existe
um fator de desigualdade que persiste em nossa sociedade em relação às mulheres
deve ser o primeiro passo para o desenvolvimento de políticas públicas e para a
implementação e regulamentação de projetos que visem estruturar as condições de
gênero. A partir de 1988, vários governos passaram a incluir em suas
plataformas a situação das mulheres na sociedade. Foram criados, então, órgãos
estatais específicos para lidar com as questões ligadas a gênero. Atualmente
existem cerca de 40 Coordenadorias ou Assessorias nos municípios, algumas com
status de Secretaria, segundo a Coordenadoria Especial da Mulher da Cidade de
São Paulo.
Esses órgãos são
diretamente ligados ao poder executivo, porém, infelizmente, enfrentam
problemas estruturais, como a falta de equipe técnica e a escassez de recursos
financeiros para o desenvolvimento das ações dentro de um plano político que
vise mudança estrutural da condição de vida das mulheres, principalmente
mulheres negras. Observar o desenvolvimento e cobrar do poder executivo o
cumprimento das políticas públicas é de fundamental importância para que a
história das mulheres e das relações de gênero não seja mantida somente como
"um campo" na história.
Nesse contexto, a
análise e a discussão de políticas públicas vinculadas à igualdade de gênero
deveriam caminhar em direção ao espaço de emancipação e reconhecimento da
alteridade das mulheres.
A preocupação inicial
é reconhecer quais são as diretrizes governamentais do município de São Paulo
através da Secretaria do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade, criada em
2001 com o objetivo de implantar programas voltados à promoção do
desenvolvimento econômico com inclusão social, e que, em janeiro de 2005, sofre
uma alteração no nome e passa a se chamar Secretaria Municipal do Trabalho.
Essa Secretaria tem como objetivo priorizar o investimento em qualificação
profissional e geração de emprego e renda na capital; já a Coordenadoria das
Mulheres, criada em 1989, tem como função a criação e a implementação de
políticas públicas voltadas para as mulheres.
Os programas
“emancipatórios” e “redistributivos” tiveram seu início na gestão da prefeita
Marta Suplicy a partir do ano 2001. Tiveram continuidade, primeiramente, com o
prefeito José Serra, no ano 2005, e, atualmente, com o prefeito Gilberto
Kassab. Cabe aqui centralizar a discussão na participação das mulheres nos
programas Capacita Sampa e Operação Trabalho, analisando as
perspectivas de sua participação no que diz respeito à inclusão ou recolocação
dessas mulheres no mercado de trabalho.
Os programas em
teoria têm um caráter “redistributivo” e “emancipatório”, e sua importância
deveria estar pautada em dar acesso a mulheres que não estão inseridas
diretamente ou formalmente no mercado de trabalho, por meio de cursos de
qualificação e capacitação profissional.
O principal ponto de
análise desses programas é a relação estabelecida entre eles e as políticas desenvolvidas
especificamente para mulheres de acordo com suas necessidades reais, levando em
consideração a relação gênero e raça, assim como a perspectiva de inserção no
mercado de trabalho e a autonomia necessária para que a independência técnica e
econômica das beneficiárias seja concretamente alcançada ao final dos
programas.
Em 2002, as mulheres
eram mais da metade da população desempregada no município (53,1%); em 1989,
eram 49,5% e a sua taxa de desemprego total passou para 20,6%, ainda 32,1%
maior do que a dos homens (15,6%). Segundo Maria Cecília Comegno (2005), “Esse
era um problema ainda maior para as mulheres negras, já que uma em cada quatro
estava procurando trabalho, com taxa de desemprego de 25,3%, também superior à
dos homens negros (20,2%).” O recorte gênero/raça não pode ser feito, porque
não há esse tipo de recorte dentro dos programas. Em um município onde 25,3%
das mulheres negras estão desempregadas e as que possuem emprego recebem em
média 20% a menos do que as mulheres brancas, verifica-se que é imprescindível
que haja uma política de Estado para gênero e raça.
Não existe entre a
Secretaria Municipal do Trabalho e a Coordenadoria Especial da Mulher um
diálogo sólido e permanente. Diante disso, fica difícil o desenvolvimento de
políticas específicas para as mulheres inseridas nos programas. Um exemplo
disso é a falta de dados e de um planejamento dentro da Coordenadoria Especial
da Mulher que identifique a situação das beneficiárias nos programas, e isso é
uma falha grave. Ao mesmo tempo, não há por parte da Secretaria Municipal do
Trabalho um programa de acompanhamento e identificação dos principais problemas
pelos quais passam essas mulheres ao longo dos cursos, prejudicando assim um
direcionamento no que diz respeito a políticas e projetos que, em tese,
deveriam e/ou estariam relacionados à Coordenadoria Especial da Mulher, uma vez
que sua função é articular, formular e implementar políticas e programas para
mulheres da cidade de São Paulo, e a desagregação desses órgãos frente à formulação
de projetos e programas específicos faz com que exista uma ineficácia
institucional na realização de ações que visem reduzir as desigualdades de
gênero e raça.
O principal ponto de
análise desses programas é o tipo de relação estabelecida entre eles e as
políticas desenvolvidas especificamente para mulheres. É preciso que suas
necessidades reais sejam consideradas, para que haja uma verdadeira emancipação
e autonomia técnica e econômica das beneficiárias ao final dos programas.
Considerações Finais
As problemáticas por
que passou a estruturação dos programas, no que diz respeito às questões de
gênero e raça, incidem em orientação muito frágil. Quanto aos entendimentos
sobre gênero e raça, o planejamento institucional de políticas para mulheres
parece inexistente. Essa questão fica amenizada se levarmos em consideração que
políticas públicas direcionadas às relações de gênero têm uma dinâmica
relativamente recente nos órgãos governamentais do município de São Paulo.
Não há por parte
desses órgãos esforços para que haja pelo menos uma compreensão do que deva ser
feito para que efetivamente as desigualdades de gênero sofram um retrocesso.
Torna-se urgente maior atenção a estudos de gênero e raça, pois eles são, no
momento, os indicadores importantes para possíveis implementações de políticas
para mulheres negras.
Mas para as
beneficiárias este tipo de análise não faz diferença alguma, pois a condição
política não mudou, e elas continuarão recorrendo a esses programas porque eles
representam, de alguma forma, uma esperança de melhora em suas condições de
vida. Por outro lado, para a Secretaria Municipal do Trabalho não há interesse
em mudanças significativas na estrutura dos programas, visto que isso
demandaria diálogos diretos com outros órgãos municipais e o desenvolvimento de
políticas voltadas especificamente para a realidade das mulheres do município.
Portanto, a importância se restringe somente à execução sistemática dos
programas; para além dessa execução é necessário considerar os diversos fatores
de desagregação social e racial pelos quais passam essas mulheres.
Isso indica que um
plano inicial deve estar centrado em estudos e pesquisas de desigualdades de
gênero e raça e na incorporação da desagregação de indicadores por sexo em
todos os programas. Para os órgãos governamentais deve ficar claro que, a
partir de tais estudos, as políticas de gênero não são neutras e têm impactos
diferentes na relação homem/mulher. E enquanto esse fator não for levado em
consideração na formulação dos programas não haverá uma promoção de igualdade
de gênero.
As políticas
específicas de gênero, quando propostas por órgãos governamentais, devem
vincular-se e dialogar com todas as esferas institucionais. O reconhecimento de
tais políticas não deve ter um alcance limitado, e, nesse sentido, os modos de
“inserção” precisam ser questionados e reelaborados para que as ações sejam
efetivas e incisivas. Ainda temos como campo de análise as políticas públicas
desvinculadas de ações concretas que visam transformações definitivas do modelo
de dominação vigente em nossa sociedade, em que o tripé de desigualdade
socioeconômica está alicerçado nas relações estabelecidas entre raça, classe e
gênero. Para que ocorra uma mudança nesse quadro, será necessário que os
enfrentamentos saiam do campo da neutralidade e que o Estado não transforme a
luta das mulheres contra a opressão em meras pautas de governo.
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REVISTA ESTUDOS FEMINISTAS.
São Paulo: Scielo, 2006. Print ISSN 0104-026X. Por Juliana Esteves.
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